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QUADRINHOS

BATMAN:

O HAMLET DOS QUADRINHOS

MARCELO LOURENÇO - 22 / 05 / 2014

As fotos que o diretor Zack Snyder colocou na net na semana passada só provam o que toda a gente já sabe – que ele e os produtores do “Batman versus Superman” não sabem nada, nada, nada de Batman.

 

Não é a roupa, não é o tamanho das orelhas da máscara, nem o fato do uniforme estar parecido com o clássico “Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller que faz um bom filme do Batman - é o personagem dentro da roupa de morcego que faz dele, o único herói sem nenhum tipo de superpoder, o personagem mais foderoso dos quadrinhos.

 

E só quem não percebe isso acha que o Ben Affleck pode convencer como o Batman.

Porque o Batman é o Hamlet das histórias em quadrinhos.

“ HÁ ALGUMA COISA DE PODRE NO REINO DE GOTHAM ”

Como Hamlet, ele é um príncipe cujo pai foi assassinado e o reino entregue aos mais terríveis vilões - ao tio (o assassino do pai) na peça de Shakespeare e ao crime (já que foi um criminoso que matou os pais do jovem Bruce Wayne) nas histórias em quadrinhos.

 

“Há alguma coisa de podre no reino de Gotham”, poderia o rapaz dizer quando finalmente volta à cidade.

 

Batman, como Hamlet, é um personagem cheio de dilemas, consumido por uma missão tão terrível que vai destruindo toda a sua vida - os dois têm tudo mas o peso desta missão faz com que não tenham nada.

 

O Christopher Nolan é que sacou bem a coisa - toda a dúvida existencial do Bruce Wayne, se continua ou não a sua cruzada - algo que o filme “The Dark Knight” captou à perfeição - poderia muito bem ser resumido na mais famosa frase de Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão”.

" SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO "

Enquanto o Homem-Aranha é uma comédia juvenil, e o Super-Homem é pura ficção científica, a história do Batman é algo mais sofisticado: é uma tragédia “noir”.

 

É por isso que cinema pode destruir todos os personagens da Marvel e da DC que o mundo nerd não se importa. Não estamos nem aí. Mas com o Batman é diferente. Ele é a nossa única desculpa, aquilo que nos permite dizer “Estão vendo? Os quadrinhos são muito mais do que isso”. A sofisticação do Batman enquanto personagem é a nossa redenção, a nossa reserva moral, o que nos permite ler uma revista em quadrinhos como quem lê, lá está, Shakespeare.

 

Isso nos fez engolir o Tim Burton (e o Michael Keaton, o Batman baixinho e careca). Porque havia ali uma seriedade (talvez falsa), uma profundidade que satisfazia a reverência que o personagem sempre pediu. É por isso que o Christian Bale é o Batman perfeito - alguém obsessivo o suficiente para perder 40 quilos para fazer um papel é o tipo de maluco capaz de vestir uma roupa de morcego.

 

E é por isso que o Ben Affleck nunca será o Batman - ele tem cara de quem não tem estes dilemas - e se os tivesse resolveria com uma boa bebedeira.

 

Ao colocar na net uma foto do Ben Affleck vestido de Batman com uma carinha triste, Zack Snyder mais do que criar uma piada planetária com os memes do “Sad Batman” se multiplicando na internet, acabou por revelar que a sua visão do personagem é um grande clichê.

 

E se esse for o caso, talvez o Ben Affleck seja mesmo o cara certo para o papel.

ILUSTRAÇÕES:  FRANK MILLER - DAVID MAZZUCHELLI - NEAL ADAMS - JIM LEE

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