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SHOW / EDDIE VEDDER

O DIA EM QUE EU DEIXEI DE SER FÃ DO PEARL JAM

Com quatro shows do Pearl Jam no currículo, coleção de DVDs, bootlegs, toda a discografia, documentário e livro, eu me considero uma grande fã da banda seminal do movimento grunge de Seattle. Mas, naquela noite de 7 de maio de 2014, a caminho do Citibank Hall (antigo Credicard Hall), eu decidi que esqueceria toda aquela relação de idolatria cultivada por duas décadas e encararia a apresentação solo do frontman Eddie Vedder como se estivesse vendo um artista novo ao vivo pela primeira vez.

No fundo, eu temia que qualquer comparação que eu fizesse com a minha banda favorita pudesse prejudicar meu julgamento. E também confesso que, apesar de AMAR a trilha sonora que ele fez para o filme “Into the Wild” (“Na Natureza Selvagem”), de Sean Penn, eu acho o disco do ukulele (“Ukulele Songs”, de 2011) meio xexelento. Por outro lado, acharia bem chato se ele apoiasse o show apenas nos clássicos da banda que integra apenas para ganhar a plateia. Não li nada e nem pesquisei sobre a turnê solo e não sabia o que esperar.

De cara, senti a dificuldade a minha missão. Afinal de contas, todos os “elementos” a que eu sempre estive acostumada nos show do Pearl Jam estavam lá: as camisas de flanela, o xadrez predominante, as longas cabeleiras e as camisetas pretas estampando diferentes logotipos da banda e datas de turnês. Mas havia também importantes diferenças que não me deixavam enganar: luxuosa casa de espetáculos, cadeiras, público sentado e bem comportado.

 

DENISE MARSON - 16 / 02 / 2014

SHOW DO EDDIE VEDDER EM SÃO PAULO

Infelizmente, o fato de ter que cruzar a cidade durante a semana utilizando o transporte público fez com que eu chegasse só na última música do show de abertura, que foi feito pelo ator, vocalista e guitarrista irlandês Glen Hansard - que eu conheci quando assisti ao premiado filme “Apenas Uma Vez” (“Once”), de 2007. Depois da apresentação, os alto-falantes começaram a tocar uma sequência de músicas da cantora e compositora americana Cat Power que, assim como Glen, foi parceira do Eddie Vedder em algumas apresentações.

Pouco antes das 22h (acho que foi às 21h50) – depois de uma pessoa da equipe técnica pedir ao público que não fotografasse ou gravasse o espetáculo e apenas curtisse o momento – sob a introdução da instrumental “Tuolumne”, Eddie Vedder chega sozinho ao enorme palco, acenando ainda timidamente para a plateia. O cenário bastante simples era composto basicamente por um círculo feito no chão que demarcava a área central onde estavam alguns banquinhos, uma vitrola, uma maleta com partituras, uma fogueirinha de mentira, e seus muitos instrumentos. Ao fundo, apenas um painel que alternou três diferentes imagens durante toda a apresentação (um prédio, uma tenda de acampamento e um céu estrelado).

Após uma entusiasmada saudação da plateia, o silêncio reinou. E, com os telões desligados, éramos só nós (umas 5 mil pessoas) e a voz de barítono do Eddie Vedder ecoando nitidamente pela casa toda. E, mais uma vez, eu tive uma prova de como seu vocal é potente ao vivo. Conversando entre uma música e outra, lendo seus discursos em português (a pronúncia está cada vez melhor) ou fazendo piadas com o público em seu idioma nativo, sua voz é bastante rouca, grave e cheia de pigarro (que eu saiba, ele é fumante), a tal ponto que dá até para temer que ele vá ficar afônico antes de acabar a apresentação. É certo que ele se destaca nos timbres mais profundos e “escuros” – hoje ainda mais que no passado. Mas ele não faz feio em nenhuma das músicas antigas.

 

A BANDA DE SEATTLE FOI LEMBRADA EM

QUASE UM TERÇO DO SHOW

De modo geral, o repertório de 34 músicas (!) trouxe covers diversos que homenagearam muitos dos seus heróis. Na enorme lista, estavam algumas canções já conhecidas na interpretação de Vedder como “You’ve Got to Hide Your Love Away” dos Beatles, e “Last Kiss”, canção de Wayne Cochran que ficou extremamente popular no Brasil graças ao Pearl Jam (e que poderia ter ficado de fora facilmente, na minha opinião). Entre as releituras de seus ídolos também estavam canções do The Who, Bob Dylan, Cat Stevens e Bruce Springsteen e de muitos outros (lista completa no final).

Quem vestia a camiseta do Pearl Jam também não ficou desapontado. O vocalista brincou ao dizer que estava bêbado quando errou a introdução do lado B “Dead Man”, primeira que tocou do repertório da banda, antes de engatar a primeira música que realmente empolgou o público: a versão no ukulele para “Can’t Keep” do “Riot Act” (2002).

No repertório da noite, a banda de Seattle foi lembrada em quase um terço do show, com poucos hits (ainda bem!) e mais músicas alternativas como “Soon Forget”, do sombrio álbum “Binaural” (2000), que o cantor disse ter sido a primeira música que ele fez com o ukulele. Também do “Riot Act”, foi executada “I Am Mine” – canção que foi precedida por um discurso sobre a finitude da vida que casou perfeitamente com os versos libertários “I know I was born and I know that I’ll die. The inbetween is mine”.

Mas não demorou muito para Eddie Vedder relembrar aos fãs que aquele não era um show de sua banda. E disparou uma sequência de canções do seu primeiro trabalho solo. Todas as minhas preferidas: “Far Behind”, “Setting Forth” e “Guaranteed”.

 

EDDIE FEZ UM BELÍSSIMO DUETO

COM GLEN HANSARD

Para a minha sorte, o Glen Hansard voltou ao palco como convidado e fez dueto com o Eddie Vedder em algumas canções, também acompanhando no baixo e no violão. Na primeira tentativa, quando os dois começaram a tocar “Long Nights”, da trilha de “Into the Wild”, – Glen no baixo e nos backing vocals – um problema com o violão de Vedder fez com que a música tivesse que ser interrompida. Ele tentou com a guitarra, não gostou do resultado e, por fim, desistiu, dizendo que tentaria de novo outro dia.

Algumas músicas adiante, os acordes de “Porch” (do álbum de estreia “Ten”, de 1991) começaram lentamente no violão de Vedder e ameaçaram transformar o show num espetáculo de arena. Aos poucos, todo mundo foi levantando das cadeiras e o clima intimista foi pras cucuias. Seria uma catarse? No fundo, o que todos estavam esperando era por mais um show do Pearl Jam? Eu creio que não.

E a bola baixou (no bom sentido) novamente com a clássica “Sleepless Nights”, dos Everly Brothers. Ela foi cantada por Eddie e seu ukulele, sem microfones e amplificadores, na beiradinha do palco, com a companhia do violão e dos backing vocals de Glen Hansard. Silêncio absoluto no Citibank Hall e ai de quem desse soltasse gritinho porque a repreensão era geral.

Eddie aproveitou o clima para emendar uma música nova. Sem nome definido, ela foi chamada provisoriamente de “I Won’t Hold On” e acho que ninguém ligou muito pra ela. De fato, achei meio fraquinha.

E foi também com o músico irlandês que Eddie Vedder fez um dos covers mais lindos da noite. Juntos eles cantaram a premiada “Falling Slowly”, canção composta por Hansard para o filme “Once” (gravada com a cantora e compositora tcheca Markéta Irglová, no duo The Swell Season). Foi de arrepiar!

Na sequência, houve aquelas manjadas palminhas acompanhando “Last Kiss” e o vocalista encarnou o apresentador de programa de auditório e escolheu uma pessoa da plateia para cantar “Should I Stay or Should I Go” do Clash enquanto ele tocava violão. Indicado pelo público, o fã Marcelo subiu ao palco, se atrapalhou com a letra e fez o seu melhor.

Mesmo com o silêncio requisitado pela produção e respeitado por boa parte do público, não foram poucos os pedidos por músicas da banda de Seattle, como o lado B “Footsteps” (não atendido, infelizmente). Mas eu fiquei animada mesmo quando comecei a ouvir gritos de “Off He Goes”. E, como se estivéssemos num barzinho com um artista novo (exatamente como eu queria), Vedder começou a dedilhar a introdução: “Essa não é das mais fáceis, mas acho que eu consigo”. Marmanjos levantaram, se abraçaram e alguns choraram. Coisa linda!

 

O ENCERRAMENTO NÃO PODERIA

SER MELHOR: COM “HARD SUN”

Com o público nas mãos, o cantor ensaiou passinhos de dança (até improvisou um moonwalker) e aproveitou para pedir o apoio dos fãs ao gravar um vídeo em que todos gritavam “força” para o seu tio Johnny, que estava “lutando bravamente pela vida”. É claro que não faltou toda aquela baboseira tradicional de falar que os brasileiros são o melhor público do mundo (ok, Eddie, sabemos que você fala isso para todos) e, lá pro fim da apresentação, uma bandeira do Brasil com os dizeres “Ed Ved” começou a fazer parte do cenário. Segundo ele, o presente iria substituir uma outra bandeira que ele já tinha em seu estúdio.

O encerramento não poderia ser melhor: com “Hard Sun”, luzes acesas, público de pé e refrão sendo repetido infinitas vezes pelo público até sumir num fade, longo o suficiente para que a música ficasse na minha cabeça pelos dois dias seguintes.

A verdade é que, naquela noite, eu saí do Citibank Hall um pouquinho mais fã do Eddie Vedder que dos outros membros do Pearl Jam (Sorry, Mike, Jeff, Stone e Matt…). Definitivamente, o cara mais legal do rock. E aposto que os outros 5 mil espectadores concordarão comigo.

SETLIST

 

 • Walking the Cow (Daniel Johnston)

 • Trouble (Cat Stevens)

 • Dead Man (Pearl Jam)

 • Can't Keep (Pearl Jam)

 • Sleeping By Myself (também entrou “Lightning Bolt”, de 2013)

 • Without You

 • Soon Forget (Pearl Jam)

 • Light Today

 • Throw Your Arms Around Me (Hunters & Collectors)

 • I'm One (The Who)

 • Speed of Sound (Pearl Jam)

 • I Am Mine (Pearl Jam)

 • Man of the Hour (Pearl Jam)

 • Wishlist (Pearl Jam)

 • Far Behind

 • Setting Forth

 • Guaranteed

 • Long Nights (with Glen Hansard)

 • You've Got to Hide Your Love Away (The Beatles)

 • Unthought Known (Pearl Jam)

 • Picture in a Frame (Tom Waits)

 • Future Days (Pearl Jam)

 • Masters of War (Bob Dylan)

 • Porch (Pearl Jam)

 • Sleepless Nights (The Everly Brothers cover) (with Glen Hansard)

 • I Won't Hold On (título provisório de uma suposta música nova)

 • Society (Jerry Hannan)

 • Falling Slowly (The Swell Season)

 • Last Kiss (Wayne Cochran cover)

 • Should I Stay or Should I Go (The Clash)

 • Off He Goes (Pearl Jam)

 • Open All Night (Bruce Springsteen)

 • Better Days

 

Bis

 • Hard Sun (Indio)

FOTOS :  JBL

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